domingo, 19 de julho de 2009

Sá Carneiro: O país deve-lhe o “pluralismo” e “estabilidade”



“Francisco Sá Carneiro, fundador do PPD, celebraria hoje 75 anos. O DN perguntou a académicos da ciência política o que resta do seu legado político
Julho de 2004. Durão Barroso, à frente de um governo de aliança entre o PSD e o CDS, demite-se de primeiro-ministro para assumir a presidência da Comissão Europeia. O Presidente da República, Jorge Sampaio, tem duas opções: ou convoca legislativas ou escolhe outra personalidade da coligação para suceder a Durão.
A esquerda pressiona-o para que se decida por eleições. Mas Sampaio recusa – escolhe Santana. Ferro Rodrigues demite-se da liderança do PS. Furiosa, Ana Gomes, que integrava na altura a direcção socialista, escreve um sms a alguns amigos: “Uma maioria, um Governo, um Presidente.” Como que dizendo que o Governo tinha no Presidente da República um aliado às ordens.
De todas as palavras que Francisco Sá Carneiro disse em vida, foi este slogan que sobreviveu: “Uma maioria, um Governo, um Presidente”. Inventou-o na campanha presidencial de 1980. Era primeiro-ministro e liderava um Governo de maioria em aliança com o CDS e o PPM (a AD, Aliança Democrática). O general Eanes era recandidato a Presidente da República e Sá Carneiro queria tudo menos que vencesse. Apoiou Soares Carneiro. Sintetizando em meia dúzia de palavras a ideia de instabilidade que implicaria um Presidente de “cor” diferente da maioria governativa, Sá Carneiro disse: “Uma maioria, um Governo, um Presidente”.
A ideia de estabilidade. É precisamente esse, segundo politólogo Manuel Meirinho, o principal legado de Sá Carneiro. Com a vitória da AD em 1979, com maioria absoluta, “consolidou-se a ideia de que era possível estabilidade”. E o país, até lá, escassos cinco anos passados sobre o 25 de Abril, “tinha um grande problema de instabilidade”. “A ideia de estabilidade foi uma trave-mestra na consolidação do regime”, diz Meirinho. E para essa consolidação foi também “muito importante” a “ideia de alternância”. “Não há consolidação de uma democracia sem alternância”. De resto, “pouco ficou”. “Ideologicamente nada, porque os partidos esvaziaram-se ideologicamente.” “Ficou só algum simbolismo em torno de traços de carácter, como a determinação, a combatividade, a coragem.”
A vida Sá Carneiro foi interrompida em 4 de Dezembro de 1980, num pequeno Cessna que se despenhou segundos depois de descolar da Portela a caminho do Porto, onde participaria num dos derradeiros comícios da campanha presidencial do general Soares Carneiro. Sá Carneiro celebraria hoje 75 anos.
A vitória da AD em 1979, com maioria absoluta, tornou claro que o país não queria ficar refém das esquerdas para sempre. “Se não fosse essa vitória teríamos tido uma mexicanização do regime em torno do PS”, diz outro politólogo, Adelino Maltez. Por mexicanização significa-se a consolidação de uma espécie de uma democracia monopartidária, como foi, durante décadas, o México, liderado pelo PRI (Partido Revolucionário Institucional). “Tem havido alternância e isso só acontece porque a AD venceu em 1979″, diz o académico. Por outras palvras: “Devemos-lhe a democracia pluralista.”
DN

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